15 de dezembro de 2015

Novidades Enevenenadas: As Farsas dos Moços de Capela

“Na mão da Mãe há um terço;
na voz do Pai, o desprezo.
O gesto lindo torna-se inútil...
No canto escuro, eu, o preço...
Meu Deus! Janelas todas fechadas!
Meu Deus! O corredor não tem fim!
Meu Pai, enxota os pássaros negros que sobrevoam o meu jardim.
Eu só queria ouvir e ser ouvido...
Correr ao vosso encontro sem estar perdido.
Espalmar as mãos magras, feias, estendidas...
Matar o tempo, disfarçando vidas, vidas.
Senhor, por que a gente só pensa em ler histórias que já foram lidas?
A rosa nasce em lugar lamacento...
O homem paga para gastar lamentos!
Eu só queria ouvir e ser ouvido.
Correr ao vosso encontro, sem estar perdido.”
“O preço” – de Lão Goes – por  Dom Inácio de Avelar


Olá, Envenenados!

Quando observamos nos noticiários em TVs, rádios e internet, as inúmeras demonstrações diárias de intolerância a tudo que é diferente, pensamos em como o ser humano pode ser cruel, injusto, leviano. Muitos, diante de tantas atrocidades, dizem que é “o fim dos tempos”, que o juízo final está próximo e, por aí vai, de acordo com as crenças ou a falta delas.
Mas tenho um alento aos mensageiros do Apocalipse de plantão: a humanidade sempre demonstrou sua crueldade, com requintes, desde seus primórdios.
Depois que inventaram as divisões territoriais, religiosas, sociais e étnicas, a coisa só piorou.
Vejam bem, não estou fazendo apologia a nada, apenas constatando fatos, nos quais venho pensando muito, devido a tantas ações terroristas, extremistas, de políticos extremamente corruptos e cínicos, enfim, de pessoas que não levam em consideração os outros, sejam eles culpados ou inocentes.
Muitas vezes, tento me privar desses noticiários, me embrenho no mundo dos meus amados livros, e dou umas férias para essa ansiedade urbana.
Numa dessas fugas, fiz uma viagem impressionante à nossa antiga Metrópole. Comecei a ler As Farsas dos Moços de Capela, de Carlos Hiran Goes de Souza. Uma novidade da Eldorado, que está começando com os dois pés no ramo editorial, além de manter a minha livraria preferida em pleno funcionamento.
Para variar, estava passando por lá e, claro, não me conformando em paquerar a vitrine, entrei para cutucar meus queridos vendedores à procura de novidades, sobretudo literatura de época.
Foi quando me apresentaram um livro cuja capa atraiu minha atenção (apaixonada por História que sou), me informando que acabara de chegar e que era uma edição da Eldorado. Frequentadora da livraria há mais de 10 anos, fiquei muito feliz.
Mathilde, Carlos Hiran, eu e meu exemplar autografado!
O gerente me informou que o autor, que não mora no Brasil, estaria aqui para o lançamento do livro e convidou-me para um papo com Carlos Hiran.
O autor nos contou como se inspirou para contar a história dos Moços de Capela. E foi assim que conheci uma história incrível que é um dos panos de fundo da trama do livro. Trata-se da história do amor proibido entre o infante D. Pedro, herdeiro do trono de Portugal, e Dona Inês de Castro, dama de companhia de sua esposa Dona Constança Manuel. É gente, Portugal também é cenário de romances, de amores impossíveis e dramas familiares e políticos em consequência.
“Apesar do casamento, o Infante marcava encontros românticos com Inês nos jardins da Quinta das Lágrimas. Depois da morte de D. Constança em 1345, D. Pedro passou a viver maritalmente com Inês, o que acabou por afrontar o rei D. Afonso IV, seu pai, que condenava de forma veemente a ligação, e provocou forte reprovação da corte e do povo.
Durante anos, Pedro e Inês viveram nos Paços de Santa Clara, em Coimbra, com os seus três filhos. Mas com a crescente censura à união, a corte pressionava constantemente D. Afonso IV, que acabou por mandar assassinar Inês de Castro em Janeiro de 1355. Louco de dor, Pedro liderou uma revolta contra o rei, nunca perdoando ao pai o assassinato da amada. Quando finalmente assumiu a coroa em 1357, D. Pedro mandou prender e matar os assassinos de Inês, arrancando-lhes o coração, o que lhe valeu o cognome de o Cruel.
Mais tarde, jurando que se havia casado secretamente com Inês de Castro, D. Pedro impôs o seu reconhecimento como rainha de Portugal. Em Abril de 1360, ordenou a trasladação o corpo de Inês de Coimbra para o Mosteiro Real de Alcobaça, onde mandou construir dois magníficos túmulos, para que pudesse descansar para sempre ao lado da sua eterna amada.
Túmulos de Dona Inês e de D. Pedro
Assim ficaria imortalizada em pedra a mais arrebatadora história de amor portuguesa.”A Lenda de Pedro e Inês
Nossa história começa dois séculos depois, quando dois jovens sacristães são envolvidos numa trama (farsa) articulada pela Corte portuguesa e pela Igreja, com objetivos distintos.
D. João III, então rei de Portugal, almeja desaparecer com as lembranças de D. Inês de Castro, a Rainha Morta, já a Igreja (ou uma parte considerável dela) busca razões para instaurar definitivamente a inquisição em terras lusitanas.
Com uma escrita impecável, Carlos Hiran conta essa história, onde realidade e ficção se fundem e se confundem, e nos leva por algumas ruas de Portugal, nos faz caminhar por corredores de mosteiros, acompanhar personagens enigmáticos – uns manipuladores, outros manipulados, e viver momentos de incertezas, onde a inocência não é motivo para recuar com manobras sombrias, vis e insanas.
Como o autor me explicou, “farsas” vão muito além com nosso conhecimento comum (s.f. Mentira; ação ou comportamento ardiloso que induz ao engano. P.ext. Embuste; ação que busca iludir; em que há fingimento. Teatro. Peça cômica de teor popular, simples, burlesca em que o ridículo prevalece: os alunos encenavam uma farsa na peça do colégio. P.ext. Narrativa engraçada, burlesca que busca entreteter por meio do riso. Comédia de nível inferior, ruim. Tudo o que tem uma essência burlesca, cômica (Etm. do francês: farse; do latim: farsus). Elas não dizem respeito apenas a mentiras, embustes e com a leitura a gente vai percebendo isso, mas estão bem longe de serem uma comédia, boa ou ruim.
Não sou uma analista literária, sou apenas uma leitora, e quero explicar a minha colocação no início da postagem.
Quando estava no penúltimo capítulo do livro, lembrei-me das perseguições que o mundo tem presenciado, sejam elas por diferenças raciais, políticas, religiosas ou sexuais.
Pensei na soberba de algumas pessoas que usam a religião, ou outro tema, para  se autoproclamarem donos da verdade absoluta, seres superiores que se dão o direito de capturar, julgar e condenar todos os que têm um pensamento diferente, não importando se esse pensamento os prejudica ou não.
A inquisição agiu dessa maneira durante muito tempo, ceifando incontáveis vidas, por motivos muitas vezes torpes. Aliás, matar em nome de Deus? Quer motivo mais torpe?
Essa é uma trama, despretensiosa, que impressiona pela inteligência ao contar as aventuras, as dúvidas, as angústias dos protagonistas e como foram usados em sua inocência e fé para atingirem objetivos que eles sequer sonhavam. Uma história sobre traição, fé, medos, libertação e esperança.
Como Carlos Hiran mesmo diz, ele não teve a intenção de reproduzir fatos fielmente, nem de manchar o nome de nenhum personagem histórico, nem ferir nenhuma religião.
Mas conseguiu despertar em mim uma curiosidade pela história pouco conhecida de nossa antiga Metrópole e seus personagens inusitados.
Quanto à edição, este é um belo começo na estrada editorial da Eldorado que conseguiu respeitar a linguagem usada pelo autor (bem dentro dos padrões do português de além-mar), mas que não nos impede de compreender bem e vivenciar a história como se dela fizéssemos parte.
Quisera eu poder contar todas as aventuras de Augusto e Lucas, dois meninos sem família e acolhidos e doutrinados pela Igreja. Uma história diligentemente contada em primeira e terceira pessoas, que eu adoraria passar muito tempo comentando. Mas deixo que vocês tenham a oportunidade de conhecer mais de perto e se encantarem tanto quanto eu.
Parabéns, Carlos Hiran e Eldorado pela obra que hoje faz parte da minha lista de preferidos!
E assim, deixo vocês, desejando um dia maravilhoso e cheio de boas histórias para contar!

Fiquem bem e Carpe Diem!

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