24 de julho de 2015

Sexta Envenenada: Outlander - O Resgate no Mar - Parte 1

“– Eu a tenho visto tantas vezes
– disse ele, a voz sussurrante e morna em meu ouvido.
 – Você veio a mim tantas vezes. Em sonhos, às vezes.
Quando estava delirante de febre.
Quando estava com tanto medo e
 tão sozinho que achava que ia morrer.
Quando eu precisava de você,
eu sempre a via, sorrindo,
com seus cabelos cacheados em volta do rosto.
Mas você nunca falou comigo.
Nunca me tocou.”
O Resgate no Mar – parte 1



Olá, Envenenados!

Estamos de volta com mais uma sexta... adoro dizer isso, parece programa de TV; repete, repete, repete...
Mas, enfim, adoro dizer isso porque sempre antecede um dos meus maiores prazeres, que é falar (escrever) sobre outro prazer – quase sexual, dependendo do livro e do autor, claro – que é a leitura.
Obviamente, estou falando sobre aquela leitura que nos faz acreditar em magia, em outras dimensões, não da leitura tortura. Estou falando de livros que nos permitem viver uma outra realidade, que contam histórias de mocinhas bacanas, que não nos provocam ânsia de estrangulá-las, fortes em todos os sentidos da palavra. Livros que contam histórias maravilhosas, não importa se sobrenaturais ou possíveis.
Entendam, não estou dizendo que todos os livros devem ser feitos como pão de forma, que existe uma receita e que todos os autores devem segui-la. Claro que não.
Continuo acreditando que o livro é o que permitimos que ele seja, o que estamos dispostos ou prontos a perceber. E a sua influência sobre nós, sobre nossas reações à sua história, é o que estamos dispostos ou prontos a sentir.
E é aqui que está a magia.
Existe uma linha muito tênue entre o que esperamos de um livro e o que recebemos dele, quando o lemos. Mas esta última, depende muito mais de nós mesmos do que dele. Um exemplo disso é a série Outlander da Diana Gabaldon, que está em seu terceiro livro pela Saída de Emergência.
Quando estamos acostumados a ler uma série de livros, até esperamos que, com o passar dos livros, a história e os personagens vão perdendo foco e força. Mas em Outlander, O Resgate no Mar (livro três – parte 1), o que vejo é que a história e os personagens estão se tonificando a cada volume.
Diana Gabaldon tem esse poder de contar uma história, adicionando os fatos históricos à sua ficção com maestria, nos envolvendo, fazendo-nos desejar estar lado a lado com cada um dos personagens, vivendo com eles suas aventuras, torcendo para que consigam superar seus infortúnios, querendo estar diante do círculo de pedras, atravessá-lo e tentar mudar o rumo da história escocesa.
“Quando eu era criança, nunca gostei de pisar em poças. Não temia minhocas ou meias molhadas: eu era, de um modo geral, uma criança levada, com uma abençoada indiferença a imundices de qualquer espécie.
Era porque eu não conseguia acreditar que aquela superfície perfeitamente lisa fosse apenas uma fina lâmina de água sobre solo firme. Eu acreditava tratar-se de um portal de algum espaço insondável. Às vezes, vendo as minúsculas ondulações nas águas causadas pela minha aproximação, eu imaginava a poça incrivelmente profunda, um mar abismal onde se ocultavam tentáculos preguiçosamente enroscados e escamas reluzentes, com a ameaça silenciosa de corpos imensos e dentes afiados à deriva nas profundezas sem fim.
Em seguida, olhando para o reflexo na água, eu podia ver meu próprio rosto redondo e os cabelos crespos contra uma expansão azul e uniforme. Pensava, então, que a poça fosse um portal para outro céu. Se eu pisasse ali, cairia de imediato, e continuaria caindo, indefinidamente, pelo espaço azul...” 
Diana Gabaldon
Com esse prólogo (pelo menos parte dele), Gabaldon compartilha conosco a magia que a acompanha desde cedo. Magia que faz parte do nosso imaginário quando crianças. Alguns fantasiam monstros sob a cama, numa sombra na parede, dentro do armário, ou nos sons no silêncio da noite. Outros, acreditam que os espelhos também são portais, e que vivemos em outras dimensões, com formatos e tudo mais invertidos.
Em uma das passagens do primeiro livro (A Viajante do Tempo) dá para associar essa imagem que ela faz da poça com o que a personagem Claire vivencia, ao ficar diante do Lago Ness.
Magicamente a autora criou portais do tempo, ao dar vida a uma história impressionante, que vem crescendo a cada página, a cada volume.
Neste terceiro volume, que está dividido em duas partes, vamos acompanhar momentos muito intensos, como tem sido desde o início, da história de Jaime e Claire.
Preciso confessar que, quando comecei a ler o segundo livro – A Libélula no Âmbar, passei boa parte da leitura em uma espécie de luto, pois pelo que parecia, nosso herói teria sucumbido à Batalha de Culloden (fato histórico), como Claire havia “profetizado”. Ela mesma acreditava nisso. E foi assim que a história começou; com ela de volta ao século XX, buscando informações sobre o que aconteceu naquele dia sombrio.
E a história é contada por ela, mais uma vez. Explicando para seu amigo Roger e sua filha Brianna uma parte fundamental da história escocesa e de como, extraordinariamente, fez parte dela.
Em O Resgate no Mar – parte 1, vamos conhecer o que se passou na vida de Claire e Jaime (ou pelo menos algumas passagens) nesses 20  anos de hiato.
http://www.deviantart.com/art/Jamie-and-Claire-Candlelight-204453807
“Há vinte anos Claire Randall voltou no tempo e encontrou o amor de sua vida – Jamie Fraser, um escocês do século XVIII. Mas, desde que retornou à sua própria época, ela sempre pensou que ele tinha sido morto na Batalha de Culloden.
Agora, em 1968, Claire descobre, com a ajuda de Roger Wakefield, evidências de que seu amado pode estar vivo. A lembrança do guerreiro escocês não a abandona... seu corpo e sua alma clamam por ele em seus sonhos. Claire terá que fazer uma escolha: voltar para Jaime ou ficar com Brianna, a filha dos dois.
Jaime, por sua vez, está perdido. Os ingleses se recusaram a matá-lo depois de sufocarem a revolta de que ele fazia parte. Longe de sua amada e em meio a um país devastado pela guerra e pela fome, o rapaz precisa retomar sua vida.
As intrigas ficam cada vez mais perigosas e, à medida que o tempo e espaço se misturam, Claire e Jaime têm que encontrar a força e a coragem necessárias para enfrentar o desconhecido. Nesta viagem audaciosa, será que eles vão conseguir se reencontrar?”
Deus!
De fato é uma leitura extraordinária, fenomenal... parafraseando alguns comentaristas do livro.
Vocês estão convidados a fazer uma viagem a um parque de emoções fortes. Isso eu garanto, pois só escrevendo esta sinopse, pude reviver algumas das que este romance provocou em mim.
Pela primeira vez, o livro começa com nosso amado herói, aparentemente despertando num limbo emocional.
Num cenário sombrio de fim de batalha e começo de inferno, é assim de damos reinicio à história de Jaime e Clarie.
A partir desse momento, vamos descobrir o que aconteceu naquele 16 de abril de 1746 (data histórica), dia fatídico que assombra nossos protagonistas e alguns descendentes escoceses até os dias atuais.
Nós podemos mudar nossa história? E, se tivéssemos essa oportunidade, o que e como faríamos?
Heróis existem. Só depende do ponto de vista de quem os nomeiam heróis, não importando as batalhas de cada um.
Gosto muito de algumas frases de Deus, personagem do fabuloso Morgan Freeman em O Todo Poderoso, e uma que me lembra muito Jaime Fraser é As pessoas esperam que eu faça tudo por elas, mas não percebem que elas têm o poder. Você quer um milagre? Seja um milagre".
Jaime é dessas pessoas que não esperam o milagre acontecer; vão lá e fazem o milagre, se tornam o milagre. Ser herói, para mim, é isso: é se expor, se sacrificar (sem pesar ou pensar no que faz como um sacrifício), fazer o que acredita ser o correto, ainda que sofra as consequências, para as quais talvez não dê tanta importância, se o bem estiver sendo feito.
E Diana Gabaldon faz e se torna um milagre, ao nos presentear com essa saga impressionante que é Outlander. E, quando pensamos que está tudo perdido, acabou-se, percebemos que ainda há muito a ser contado.
Quando pensamos que algo, algum detalhe foi esquecido ou deixado de lado, ele reaparece em uma explicação incrível e lógica, que jamais poderia ter passado por nossa mente. E aí a gente fica com aquela cara de: “Ah! Entendi... isso mesmo... agora sim, faz sentido.”
Por outro lado, em Resgate no Mar, pelo menos eu, que me apeguei a todos os personagens, senti muito a falta de vários deles, e espero poder ter notícias deles nos próximos volumes, ainda que seu destino esteja implícito.
Quanto à série de TV, é outra realização fabulosa que, infelizmente, não passa aqui em terras tupiniquins e somente os fãs do gênero fazem malabarismos impossíveis para conseguir assistir.
Embora seja impossível também colocar a história integralmente numa produção de TV, a essência e qualidade estão lá, seja pelo elenco, pela direção ou pela produção, Outlander está ali na tela, com toda a emoção e criatividade que a autora, que acompanha de perto a produção, lhe conferiu.
Eu já vinha lendo a história antes da série ser lançada, mas confesso que hoje é difícil ler o livro, sem ter os rostos e as vozes dos atores que tão lindamente interpretam nossos queridos personagens, nem consigo ficar longe das urzes, nem deixar de sentir o friozinho descritos tão perfeitamente por Gabaldon.
Preciso encerrar a coluna, caso contrário, terei que transcrever toda a história aqui para vocês, pois o desejo de reler o livro começa a dominar a mente desta que vos escreve.
Felizmente, o próximo volume está prestes a ser lançado, assim, se vocês não fizeram essa viagem fascinante até as Terras Altas, garantam já o seu passaporte, mas cuidado: uma vez que embarcarem, não conseguirão voltar de lá.
Fiquem bem e “Carpe Diem quam minimum crédula póstero.”

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