19 de fevereiro de 2015

Papo Envenenado: Resiliência

A flor que desabrocha na adversidade é a mais rara e mais bela de todas.”
Fa Zhu (Mulan)


Resiliência...
O que é efêmero aos olhos?
Basicamente tudo!
A própria vida é efêmera.
No último Papo Envenenado eu trouxe um tema bastante polêmico, mas que precisa ser avaliado e discutido.
Naquele momento, relatei uma experiência que tive quando adolescente e expus minha visão dos fatos.
Hoje também vou usar um pouco da experiência que tive quando adolescente, só para introduzir alguém muito especial para mim.
Entre 1985 e 1987 frequentei o Curso de Formação de Professores do Primeiro Segmento do 1º Grau (naquela época era assim chamado, o que equivale hoje ao ensino médio com formação para professores de ensino fundamental 1).
Conheci e convivi com gurias, centenas delas, pois o Instituto de Educação do Rio de Janeiro é imenso.
Meu primeiro ano ali foi cruel, pois além de não desejar fazer o curso, estava longe de minha turma de “ginásio” e meus queridos professores do 1º grau. Lembro-me bem quando, durante os intervalos, me escondia nos corredores, para chorar, querendo fugir dali (hoje noto o exagero inerente à adolescência mesmo, o colégio nem era interno). Drama!
Mas no segundo ano a coisa mudou de figura: para começar, a minha turma original foi desfeita devido ao péssimo comportamento do grupo e das situações bizarras que criava. É óbvio que eu não era das piores, mas, assim como outra colega fui inserida na turma 1207. Acho que o choque da dissolução foi o que eu precisava para, enfim, me adaptar àquela realidade.
Vivi momentos inesquecíveis com essas meninas, fiz amizades, aprontei com colegas e professores, enfim, fui feliz e tinha consciência disso. Com essas meninas ri, chorei, vivi!
Mas nós nos formamos e, como naquela época não existiam redes sociais, celulares, enfim, toda a facilidade de comunicação que existe atualmente, seguimos para uma direção diferente, nos afastamos, crescemos, amadurecemos, realizamos coisas grandes, sofremos, perdemos, vencemos.
Desde o extinto Orkut venho tentando reconectar-me com essa parte importante da minha vida, sem muito sucesso.
Felizmente, com o Facebook, apesar de seus problemas, consegui reencontrar algumas das minhas amigas do tempo de normalista – graças também ao fato de eu ter guardado o convite de formatura, onde havia os nomes completos de todas as alunas (turmas) daquele ano.
Aos poucos vamos reconectando-nos, sabendo um pouco de cada uma, tentando trazer para o presente um pouco do fulgor daqueles anos que tivemos juntas.
Saber que estão vivendo suas vidas, tendo seus filhos, contribuindo um pouco para a sanidade desse país, é impagável. Claro, houve perdas, pelas quais ainda não lamentamos o suficiente, houve adversidades, mas também houve resiliência.
Explico-me.
Uma das minhas amigas de normal, a cerca de três ou quatro anos, foi diagnosticada com câncer de mama.
Quimioterapia e carinhoterapia
Eu tive a oportunidade de conhecer mais sobre a história quando, após 27 anos de distanciamento, conseguimos nos reencontrar.
Meus queridos, é impressionante a emoção de poder ver, abraçar e ouvir alguém que você quer tão bem, depois de tanto tempo.
Fisicamente estamos bem diferentes das adolescentes serelepes e magrelas da década de 1980: casamos, separamos, engravidamos, engordamos, enfim, possuímos as marcas de quem vive, de quem ama, sofre, supera, ri, chora e ri novamente. Mas algo estava nitidamente imutável: o olhar de quem se reconhece, o sorriso de quem ama, aceita e não quer se perder, o afetuoso calor que sentimos ao nos abraçarmos e enxugarmos as lágrimas que eram derramadas, mesmo antes de estarmos tão próximas.
Mal podíamos acreditar.
Enfim, nos sentamos, almoçamos e tentamos por em dia tantos anos de ausência – essa era a fome que mais precisávamos saciar.
Ah! Minha querida Faedra, hoje, escrevendo essa postagem, é que me dei conta de como ainda temos tamanha intimidade. Não tive pudor algum em perguntar sobre o câncer. Engraçado, com outras pessoas talvez eu não me sentisse tão à vontade para questionar. E, de repente, você estava ali, me contando desde a descoberta até o seu desejo de tatuar seus seios reconstruídos.
Que lição linda que você me passou, sobre todos os aspectos, mas, acima de tudo, sobre como podemos preservar e até melhorar a nossa essência.
Lembro-me da guria sorridente, que me recebeu de braços abertos e me fez sentir bem e aceita numa turma que não era a minha, que me acompanhou até a Escola de Música Villa Lobos para nos inscrevermos: eu queria violão e você saxofone.
Tínhamos algo especial, temos. Caso contrário, eu não teria a honra de, hoje, acompanhá-la para realizar sua tão sonhada tatuagem.
E foi este um dos motivos que me deu inspiração para escrever o post de hoje.
Durante as mais de cinco horas que ficamos no estúdio, além de ouvi-la contar suas experiências, de ouvir também a fofa da tatuadora, pude refletir sobre as coisas que realmente importam na vida.
Não importa quanto a juventude seja esteticamente bela, não importa as dores e momentos ruins que passamos, não importa quanto nosso modo de vida nos altere fisicamente. Nada disso importa, se internamente continuamos belos, íntegros, cheios de luz e amor.
O que assisti naquele dia foi a criação de uma obra de arte, por parte da Suliée Pepper, mas também a resiliência de que um ser humano é capaz.
A cada traço, a cada cor aplicada, era como se uma venda que cobria seus olhos fosse sendo retirada, linha por linha. A cada fio que era metaforicamente retirado de seus olhos, você se reconectava consigo. Você se redescobriu, minha querida amiga.
Foi muito mais do que a metamorfose pela qual a borboleta passa, e aqui cabe a definição de resiliência que é a propriedade que alguns corpos têm de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação; capacidade de se recobrar ou de se adaptar à má sorte ou às mudanças.
Garra-de-leão - floresce no Deserto de Atacama
Nem todos têm essa capacidade, mas eu tive a sorte conhecer alguém que é assim, como uma flor que desabrocha na adversidade, como você minha amiga.
Naquele momento eu descobri que nunca estivemos distantes, pois fisicamente tudo é mesmo efêmero, mas a ligação que temos é sólida; descobri que preciso amar cada parte de mim, principalmente as cicatrizes de vida, dos seios que nunca mais foram os mesmos depois da gravidez, bem como a barriga e quadris que mudaram para sempre, os cabelos brancos que estão surgindo, um após o outro. Porque cada pedaço de mim é como a parte de uma armadura, com a qual lutei minhas próprias batalhas e que não me deixou perecer.
Obviamente não estou livre, como ninguém está, de mais batalhas pela frente, mas acho que aprendi que podemos enfrentá-las e, independente do resultado, manter a cabeça erguida, o coração aberto e a alma leve.
Outra lição que tive com esta experiência, foi saber que existem mais pessoas especiais neste mundo tão turbulento. Pessoas como a Suliée Pepper que, como nos explicou durante a sessão, disponibilizou seu tempo, material, espaço e talento para trazer alegria para outras pessoas, como esta iniciativa de oferecer tatuagens para quem passou pela reconstrução de mama (fanpage www.facebook.com/sulieepepper.tattoo). Ela e as demais pessoas do SkinCaverd Tatto (https://www.facebook.com/SkinCarved?fref=ts), que foram tão receptivos, carinhosos e sensíveis conosco.
Por isso, muito longe de querer fazer propaganda, quero deixar os contatos deles para que possam conhecer seu trabalho e sentir a boa vibração que eu senti ao conhecê-los.
Sabemos que ainda há muito preconceito no que diz respeito a tatuagens e tatuadores, mas muitos como eu os olham e enxergam como artistas que usam a pele para expressar o que há de melhor dentro de nós. São pessoas que transformam, como a querida Suliée, que transformou desejo em magia. E por isso sou extremamente grata. Eu vi acontecer, eu senti a energia daquele momento único.
Você, Faedra, é como alguns personagens de ficção ou vida real, que apesar de tantas coisas vindo contra, tentando derrubá-los, conseguem manter a essência protegida, ou usar essa essência para ultrapassar essas adversidades.
Como Guido de A Vida é Bela, que a todo custo tenta mostrar como a vida pode ser bela mais para ele mesmo, que para o filho, mantendo o amor, a pureza e a hombridade acima de tudo. Como Liesel de A Menina que Roubava Livros, que passa por muitas alterações em sua vida, mas mantém o olhar límpido sobre as coisas e pessoas e consegue levar consolo a todos que a rodeiam. Como Hassan de O Caçador de Pipas que, apesar de tudo, deixa transparecer em seus olhos a inocência e lealdade que permaneceram imaculados.
Isso é algo a ser compartilhado com o maior número de pessoas possível. Estamos cansados de ver sofrimento, um após o outro, então, quando presenciamos algo tão incrível é preciso disseminar, como se fosse sementes de esperança para todas as pessoas que sofrem as consequências de um câncer, para seus amigos e familiares.
Obrigada, querida, por permitir que eu estivesse ao seu lado e pudesse crescer imensamente com esta experiência. Saúde para você, para sua família maravilhosa, e para Suliée Pepper, a tatuadora mais encantadora que eu já conheci!

15 comentários:

  1. Nossa Tânia, fiquei muito emocionada lendo sua postagem!
    Minha avó materna, teve câncer de mama e infelizmente veio a falecer aos 56 anos de idade por conta desta doença tão terrível e difícil.
    Achei muito lindo a maneira como vocês puderam se reencontrar e assim você poder fazer parte de algo tão importante para ela.
    Que a amizade de vocês floresça cada vez mais, e que sua amiga possa ser muito feliz.
    Deus sabe de todas as coisas, e com certeza foi ele que uniu vocês novamente.
    Lindo post.
    Bjus
    Lia Christo
    www.docesletras.com.br

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    1. Obrigada, querida Lia!
      São estas experiências que vão nos ajudando a crescer como ser humano.
      É difícil, é doloroso, mas, como eu disse, não importando o resultado, o que importa é como passamos por tudo isso e como chegamos inteiros!
      Obrigada, linda por acompanhar, compartilhar sua experiência e comentar!
      Beijo

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  2. Que lindo, me emocionei. Você é realmente uma pessoa iluminada, só por estar vivendo essas coisas ao lado dela, isso já é tudo! Parabéns! E obrigada por compartilhar com a gente!

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    1. Obrigada a você, Ana!
      Por reservar um tempinho para conhecer nossas histórias! E sim, você tem razão, considero-me abençoada por ter vivido tudo isso!
      Beijão, querida!

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    1. Oh! Meu amigo tão querido!
      Que surpresa maravilhosa vê-lo por aqui!
      Obrigada por me honrar com sua presença e carinho!

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  4. Então dona Tânia... Você colocou lágrimas em meus olhos. Mas são lágrimas de esperança. Não conheço ninguém que passou por situações de lutas com câncer, mas sei o quanto é sofrido, tanto pra pessoa quanto para aqueles que a rodeiam e amam. Sua amiga é uma guerreira e tenho certeza que ela fica muito feliz em saber que pode contar contigo ao lado dela.
    Um grande beijo

    Vidas em Preto e Branco 

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    1. Oi, linda!
      A intenção e levar mesmo esperança, e que bom que consegui com você também.
      Criamos sempre uma redoma sobre esse assunto e omitimos nossas impressões, seja negativas ou positivas.
      Felizmente temos este espaço para, como eu disse, disseminar sementes do bem.
      Beijo, lindona!

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  5. Oi, querida amiga. Como de comum, emocionei-me com as tuas palavras, tão cheias de amor e luz. Infelizmente, o câncer é algo que ronda a minha família, algumas pessoas o venceram e outras não tiveram a mesma sorte. Acho que é por isso que o fator "saúde" é tão importante para mim e eu fico doida da vida ao ouvir a turma do PT dizer que o setor da saúde pública melhorou no país e o pior é saber que pessoas inteligentes e sensíveis se deixam enganar e votam nessa corja. Mas vc sabe que eu gosto de escrever, começo e não paro, só que não estou aqui para falar de política, mas sim, desta história que você compartilhou conosco. Eu já tinha ouvido e visto algumas reportagens sobre a tatuagem em casos de câncer de mama, mas ela também é feita em qualquer caso em que a pessoa precise 'redesenhar' os seios, como por exemplo em casos de acidentes que geram deformidades ou cirurgias plásticas em que ocorra problemas na pele. Eu acho fantástico, pois é muito bom ver a pessoa, depois de passar por tamanho sofrimento, sorrir novamente. Eu fico extremamente feliz ao saber de casos como o que você relatou, de mais uma vencedora! No momento, tenho duas pessoas que amo muito que estão em tratamento e tenho fé de que serão mais dois vencedores também. E é tão bom reencontrar pessoas que guardamos no coração! Saiba, amiga , que assim como ela é importante para você, você também é a ela, pois foi essa comunhão de espíritos que vibram na mesma intensidade que gerou o reencontrou de vocês, ela precisava de ti e você tinha a energia e amor suficientes para ajudá-la nessa etapa da vida. A vida é assim, uma jornada cheia de obstáculos que temos que ir ultrapassando e é realmente maravilhoso quando temos uma mão amiga para segurar firme e nos ajudar a seguir adiante. Atualmente, nós somos tão sobrecarregados com noticiários cheios de notícias negativas que, quando vem uma história tão boa como a que você nos contou, a esperança de dias melhores se renova. Aproveite, amiga, é muito bom quando a vida nos presenteia com esses reencontros tão queridos. Que os Anjos abençoe as duas e as mantenha sempre unidas. Beijinhos, amei o post!

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    1. Poxa, Lu!
      Estava com saudades dos seus grandiosos comentários, em todos os sentidos!
      Concordo em tudo o que você falou, sobretudo com relação à saúde pública em nosso país. Quanta carência de tudo, não é.
      Quantas pessoas aguardando atendimento, tratamento...
      E também foi por isso que resolvi contar essa história, claro com a autorização da minha amiga. Existe esperança, precisamos dar muito amor a todos, mais ainda a esses que estão fragilizados por alguma doença.
      Estarei enviando todos os meus pensamentos mais positivos para que seus entes amados sejam vitoriosos também. Já são, por ter alguém tão linda como você por perto.
      Obrigada, minha amiga querida, por estar sempre presente para mim e por mim.

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  6. Nossa Tania... Tô aqui com meus olhos se comportando como cachoeiras... Mas vamos lá.... O pessoal das tatoos, são uns queridos nesse mundo. Sua amiga, é definitivamente um flor que brota no rochedo. Sei disso porque tenho uma família onde o câncer de qualquer tipo é uma realidade e ataca gente de 3 anos até 80. Eu mesma tô cuidando de lesões benignas que me apareceram. Então digo que a sua amiga é mesmo de uma força suprema. E também digo: como é bom ter alguém como você nas nossas vidas... <3

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    1. Querida, que bom ver você por aqui!
      A vida prega essas peças mesmo, e temos que estar sempre prontas para enfrentar tudo. Se tivermos o amor e o apoio de quem amamos essas batalhas serão mais fáceis de lutar.
      Conte comigo, se houver algo que eu possa fazer!
      Te amo, mulher linda!

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  7. Tania....parabéns pelo ser humano maravilhoso que es....lindo post....!!! amei!!!

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    1. Oi, querida!
      Que gracinha tê-la por aqui!
      Obrigada pelo carinho e por sua presença, Claudia!
      Amei muito!

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  8. Tania....parabéns pelo ser humano maravilhoso que es....lindo post....!!! amei!!!

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