1 de agosto de 2014

Sexta Envenenada: Cinquenta Tons do sr. Darcy: uma paródia

“Em definição simples, a paródia, enquanto termo literário, refere-se ao processo de imitação textual com intenção de produzir um efeito cômico. A forma como se processa essa imitação, a motivação para o ato imitativo e as consequências esperadas para esse ato determinam a natureza literária da paródia. [...] Não sendo um recurso exclusivo de uma época, está suficientemente documentada no espaço que se convencionou chamar literatura pós-moderna para nos permitir distinguir a paródia também como paradigma desta época. A condição de auto-reflexividade é apenas uma forma de realização da paródia e não a sua definição final, como propõe, por exemplo, Margaret Rose em Parody//Metafiction (Croom, Helm., Londres, 1979).
1. A paródia é a deformação de um texto preexistente.
2. A sátira é a censura de um texto preexistente.”

Olá, Envenenados!

Tudo bem com vocês?
Quanto tempo!
Estava morrendo de saudades. Peço desculpas pelo tempo de ausência, mas quem é professor, ou conhece algum de perto, sabe bem como nosso trabalho nos consome, até para cuidar da saúde abrimos mão.
Não é brinquedo, não!
Por falar em brinquedo...
Dia desses, estava perambulando pela Saens Pena, centro comercial da Tijuca (bairro aqui no Rio de Janeiro), e dei a sorte de me deparar com a feirinha de livros que nos prestigia de tempos em tempos.
Como toda apaixonada por livros, tive que vagar pelos quiosques, em busca de algo que despertasse meu interesse.
Enfim, estava quase indo embora quando dei uma última paquerada no último quiosque, quando um livro me chamou a atenção.
Primeiramente, devo confessar que nunca li, nem tenho pretensão de ler 50 Tons de Cinza, mas já ouvi tanto as amigas falando dele, que posso garantir que conheço a história. Várias publicações posteriores se basearam na trilogia erótica Cinquenta Tons de Cinza (Intrínseca), da britânica E. L. James. Não consigo vislumbrar conteúdo suficiente para preencher tantas páginas. Nenhum deles também me interessou e, antes que alguma fã fervorosa venha me criticar, quero deixar bem claro que não tenho nada contra quem leu e amou a estranha história de Anastasia e Christian Grey. Mas também não aceito que sejam contra o fato de eu não gostar dela – já disse, só pelo que sei de quem leu já é o bastante.
O livro que me chamou a atenção, tanto pela capa quanto pelo título foi Cinquenta Tons do sr. DarcyUma Paródia, publicado pela Bertrand Brasil, escrito por alguém sob o codinome de Emma Thomas aqui no Brasil.
O livro faz uma brincadeira com os personagens de Orgulho e Preconceito da nossa maravilhosa Jane Austen – motivo pelo qual o comprei – e de 50 Tons.
Comecei a lê-lo já na volta para casa.
Já na orelha me rendeu boas gargalhadas por conta do nome do Sr. Bingley, que na paródia passa a ser Bingulin. A descrição da autora também é hilária: “Emma Thomas é um codinome. Na verdade, um inglês mundialmente famoso escreveu este livro. Talvez tenha sido David Beckham, vai ver foi alguém do Palácio de Buckingham ou um dos Rolling Stones (a julgar pelo nível de loucura, deve ser a última opção). Mas pode ter sido qualquer um. Não importa: alguém fugiu do manicômio  e teve a ideia de unir Orgulho e Preconceito e Cinquenta Tons de Cinza. O resultado é um Cinquenta Tons do Sr. Darcy, uma das maiores loucuras postas em papel”.
Por me fazer sorrir em um período de muito trabalho e um resfriadão que me deixou como as submissas desses livros, toda doída, Cinquenta Tons do Sr. Darcy é o absinto de hoje. Sim, o livro, não apenas os personagens.
A história é ambientada na Inglaterra do início do século XIX, mas contém muitas expressões da atualidade para se referir ao livro mais recente.
Esse livro poderia ter sido escrito até por mim mesma, se tivesse lido 50 Tons, devido às passagens em que o(a) autor(a) exagera profundamente situações como as que se referem ao tesão eterno do personagem masculino, ou até mesmo quando descreve o olhar do protagonista.
Em certas ocasiões fica clara a ironia que faz aos romances da atualidade. Em outros, no entanto, parece que os próprios personagens, Sr. Darcy e Elizabeth Bennet criticam o(a) autor(a), bem como os protagonistas do outro livro. Até a "Deusa interior" da mala protagonista do presente século cede lugar a uma variedade de vozes interiores da protagonista vitoriana, entre elas uma sádica interior.
Durante um dos arranca-rabos, Elizabeth dá uma sacaneada em Gray: “Pois saiba que o senhor é um personagem mal desenvolvido e unidimensional. Cinquenta tons? Está mais para dois: desesperado por sexo e mal-humorado”, criticando escancaradamente a escrita de E.L. James.
Até mesmo os fetiches, o contrato, praticamente tudo é satirizado.
As irmãs do Sr. Bingulin, por exemplo, são chamadas de Vagalucy e Curraline, a enorme propriedade de Darcy é Pembaley, o primo do sr. Bennet é ninguém menos que Phil Collins, o balão do mocinho também tem nome de Charlie Tango, tal qual o helicóptero de Grey e por aí vai.
O livro garante boas risadas, pessoal, até mesmo quando a história vai ficando enrolada e repetitiva, os próprios personagens chamam a atenção para isso.
“Elizabeth poderia ter se abraçado de tanta alegria se o sr. Darcy não houvesse voltado a amarrar suas mãos. Então, os seios de Lady Catherine de Bruços não tão magníficos!

– Pembaley! – gritou o sr. Dacy, de repente, e apontou para leste. – Veja, Elizabeth, está vendo?
Àquela distância, tudo o Elizabeth podia ver era uma casa grande cercada por jardins bem-cuidados próxima a algumas montanhas.
– É impressionante! – arfou ela. A casa era pelo menos três vezes maior do que Netherfield e ultrapassava essa propriedade também em termos de elegância. – Mas como chagamos aqui tão rápido? Deixamos Hertfordshire há mais ou menos uma hora.
– Era imperativo que chegássemos rápido – respondeu o sr. Darcy. – Os leitores já estão começando a se impacientar. Agora que estamos em Pembaley, podemos começar com as partes realmente cheias de sacanagem.”
Eu, pelo menos, tive a impressão, várias vezes, de estar assistindo a uma peça teatral ou a um programa de tv nos quais os atores interagem com o público e os cacos imperam. Há inclusive momentos em que o(a) autor(a) cita determinadas construções, mas não tem conhecimento suficiente para descrevê-las ou fazer comparações no livro, como o fazem tão lindamente autoras do porte de Austen.
Para encerrar, outra passagem memorável:
“­– Taylor está me espionando? Por que o mandou fazer uma coisa dessas?
O sr. Darcy acariciou o rosto de Elizabeth com ternura.
­– Para mantê-la a salvo – murmurou ele. – Você pode tropeçar em uma fita solta. Ou ser golpeada por uma pela de travesseiro. Eu não toleraria que isso acontecesse com você, Lizzy. Você. É. Tão. Preciosa. Para. Mim.
– Estamos. Prontos. Para. Prosseguir? – perguntou o dr. Inácio, que claramente tinha pouco tempo para tais manifestações de afeição.
O sr. Darcy deixou Elizabeth e se afastou.
– Por favor, cuide bem dela, doutor – pediu ele, Seus olhos queimavam como brasas de carvão. – Ela pertence a mim.”
Apenas umas das referências aos olhos intensos do sr. Darcy. Mas o melhor vem a seguir:
“– Pode ficar seguro de que darei meu máximo. A propósito, sr. Darcy, quando eu terminar, não deseja que eu lhe dê algo para essa infecção nos olhos?
– Não, obrigado, doutor. Gosto dos meus olhos ardendo assim. Eles me deixam sexy.”
Tenho certeza de que Cinquenta Tons do sr. Darcy agradará aos fãs dos dois livros, sobretudo os que curtem uma brincadeira, os que adoram rir e os que precisam se distrair, fugir um pouco das tensões, da correria do dia a dia.
Eu fico por aqui, desejando a todos uma excelente Sexta e um final de semana maravilhoso.
Fiquem bem e Carpe Diem. 

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