27 de março de 2014

Papo Envenenado: Bullying - Ilegal, Imoral ou Engorda

“Vivo condenado a fazer o que não quero
Então, bem comportado, às vezes, eu me desespero
Se faço alguma coisa sempre alguém vem me dizer
Que isso ou aquilo não se deve fazer
Restam meus botões...
Já não sei mais o que é certo
E como vou saber
O que eu devo fazer
Que culpa tenho eu
Me diga amigo meu
Será que tudo o que eu gosto
É ilegal, é imoral ou engorda?
Há muito me perdi entre mil filosofias
Virei homem calado e até desconfiado
Procuro andar direito e ter os pés no chão
Mas certas coisas sempre me chamam atenção
Cá com meus botões...
Bolas eu não sou de ferro
Paro pra pensar
Mas não posso mudar
Que culpa tenho eu
Me diga amigo meu
Será que tudo que eu gosto
É ilegal, é imoral ou engorda?[...]”
Roberto Carlos

Olá, Envenenados! 

Já repararam como tudo hoje em dia dá processo ou causa trauma?

Roberto Carlos tinha lá seus motivos quando compôs Ilegal, Imoral ou Engorda; que deveriam ser muitos, devido ao contexto histórico em que vivia e às suas necessidades numa sociedade reprimida, mas ao mesmo tempo hipócrita.

Lamento informar, RC, mas as coisas só pioraram de lá pra cá.

Sou de um tempo em que ser criança era saber que, aos domingos, o almoço era na casa da vovó. E, assim que chegávamos lá, a D. Maria nos dava a bênção e nos mandava brincar no quintal. Criança não participava das conversas ou discussões dos adultos. Nem sabíamos que tinham problemas a serem discutidos. A gente não se metia, não dava opinião e tinha muito tempo para ser criança.

Curioso é que, por lei, a criança não pode trabalhar, mas não me lembro de ver crianças vendendo balas ou fazendo malabarismo em sinais no meu tempo de criança. E gente, eu tenho 44 anos.

Nós brincávamos com os amigos na rua, sem medo de sermos molestados. Tudo bem, isso já existia, não vou ser tola e fechar os olhos para isso, pois criminosos sempre existiram. Mas brincávamos, conversávamos, pintávamos o sete, e muitas vezes brigávamos também, mas nossos pais nem sabiam, pois o que se ouvia em casa era: “Não quero saber de brigas, de desrespeito, pois se aparecer em casa machucado, vai apanhar aqui também.” Quem era besta de chegar dizendo que arrumou confusão na rua e ainda correr o risco de, depois dos puxões de orelha, ficar de molho, sem sair novamente?
Na escola era a mesma coisa. Nossos professores só davam aula, não tinham que nos ensinar a nos comportarmos dentro de sala. Ninguém queria passar vergonha na frente da turma inteira, levando um “sabão”. E isso seguia até o Segundo Grau (Ensino Médio).

Deus nos livrasse de alcaguetar (que na época ainda era com o saudoso trema) algum colega. Nossos problemas jamais chegavam aos professores. Lembro-me de um dia em que um colega de turma escreveu BUCETA no quadro (negro), umas três vezes, porque alguns de nós apagávamos. Isso poucos minutos antes da professora de português entrar. O atazanado, que era o meu amor da adolescência – que nunca se concretizou, pois eu morria de vergonha até de olhar para ele – continuou a escrever, com letras tipo outdoor, até que a professora, por fim entrou, sem que desse tempo de apagarmos.

Enfim, foi tenso! A professora quis saber quem era o autor da obra, mas ninguém sequer respirava. Como ela ameaçou a turma toda, ele assumiu. Quando questionado do que se tratava, ele disse que era apenas uma sigla – miserável – e ela quis que ele explicasse o significado da tal sigla. O povo que estudou OSPB nos anos de 1980 deve se lembrar de uma estrada faraônica, que retrata bem a idiotice do regime militar, a Estrada Transamazônica. Então, o espertinho disse que era a sigla de Brasileiros Unidos Constroem Estrada Transamazônica. Resultado, ninguém conseguiu rir, por “cagaço” da professora, mas nunca mais esquecemos isso. A professora? Simplesmente disse-lhe que ele havia esquecido de pontuar a sigla – B.U.C.E.T.A. E acabou-se a história.

Se fosse hoje, não faltaria que entregasse o cabra, que jamais assumiria o ato.

Convivíamos com apelidos, zoações, estigmas por conta de uma característica marcante ou apenas por estudarmos mais que os outros. Mas nem por isso ninguém precisou fazer tratamento psicológico. Ninguém interrompia a aula para fazer queixa com o professor.

Hoje somos reféns de leis que deveriam melhorar a vida das pessoas, mas que são utilizadas apenas como instrumento de ameaça. Você não pode fazer nada, tem que medir o que fala, caso contrário, pode ser processado.

Sempre gostei de assistir a desenhos animados, adorava o Pernalonga, Patolino, Pica-Pau, os Flintstones, entre tantos outros, em que os personagens pintavam e bordavam, mas nem por isso eu saia por aí fazendo o mesmo que eles. Aprendi desde cedo que “meu direito começa, quando termina o do outro”. Hoje as crianças repetem o que seus personagens favoritos fazem, mas não podemos lhes chamar a atenção, para não traumatizá-las. Não me levem a mal, não, mas aqui em casa os passos da dança são ditados por mim.

Até inventaram uma palavra para assombrar nossas vidas. Tudo agora é bullying.

Bullying é um termo da língua inglesa (bully = “valentão”) que se refere a todas as formas de atitudes agressivas, verbais ou físicas, intencionais e repetitivas, que ocorrem sem motivação evidente e são exercidas por um ou mais indivíduos, causando dor e angústia, com o objetivo de intimidar ou agredir outra pessoa sem ter a possibilidade ou capacidade de se defender, sendo realizadas dentro de uma relação desigual de forças ou poder.
O bullying se divide em duas categorias: a) bullying direto, que é a forma mais comum entre os agressores masculinos e b) bullying indireto, sendo essa a forma mais comum entre mulheres e crianças, tendo como característica o isolamento social da vítima. Em geral, a vítima teme o(a) agressor(a) em razão das ameaças ou mesmo a concretização da violência, física ou sexual, ou a perda dos meios de subsistência.
O bullying é um problema mundial, podendo ocorrer em praticamente qualquer contexto no qual as pessoas interajam, tais como escola, faculdade/universidade, família, mas pode ocorrer também no local de trabalho e entre vizinhos. Há uma tendência de as escolas não admitirem a ocorrência do bullying entre seus alunos; ou desconhecem o problema ou se negam a enfrentá-lo. Esse tipo de agressão geralmente ocorre em áreas onde a presença ou supervisão de pessoas adultas é mínima ou inexistente. Estão inclusos no bullying os apelidos pejorativos criados para humilhar os colegas.” http://www.brasilescola.com/sociologia/bullying.htm

Assustador, né? Mas real.

Como diz Maurício de Sousa numa campanha nacional: “Bullying é inadmissível.”

Concordo plenamente, mas antes é preciso identificar o que realmente é bullying e se realmente está sendo praticado.

Eu tento entender como uma sociedade que cultua essa prática, agora começa a fazer campanha contra ela. Sério, é só ligar a TV e passar 3 minutos assistindo à programação de alguns canais. Programas como Malhação (que já deu o que tinha que dar – se é que tinha mesmo), Glee, essas novelas latinas, seriados da Nickelodeon, que valorizam o errado e tornam medíocre o correto.
A Mônica, por exemplo, sofre “bullying” direto do Cebolinha e Cia. Tudo bem que ela resolve na base da coelhada e, mesmo assim, eles continuam. Essa personagem tem mais de 50 anos, e nunca influenciou ninguém negativamente. Por quê?

Por mais que tenhamos lido suas histórias, o que prevalecia era a orientação, a educação que recebíamos da família. Lógico, há exceções, mas a maioria de nós não partia para a briga, quando um ou mais colegas implicavam conosco.

O que eu ouvia, se tivesse coragem de contar, era: “Não dê importância, não revide, ignore, uma hora acaba, mas se continuar, vamos tomar providências.” E isso quando já éramos adolescentes. Hoje os pequenos se enfrentam, enfrentam os adultos e ninguém sabe o que fazer. Seria bom criarem uma cartilha para ensinar como lidar com isso. Assim como criaram o Estatuto da Criança e do Adolescente, que lhes dá carta branca, deveriam criar um Estatuto do Adulto Desnorteado em Relação aos Menores de Idade.
Ilegal, Imoral ou Engorda?

Tudo ao mesmo tempo.

Vou nessa, tentando me encontrar e dar sentido na prática de tudo que aprendi quando criança, tentando não ofender nem prejudicar ninguém. Só gostaria que a recíproca fosse verdadeira.

Fiquem bem, queridos.

6 comentários:

  1. Nossa, eu simplesmente adorei esse post. Esse é um assunto um tanto polêmico, ultimamente. Tu falou, exatamente, o que eu penso.
    Eu tenho 21 anos. Lembro de que as outras crianças riam de um colega, por ele ser gordinho, lembro que as outras crianças riam de outro por ser muito magrinho, riam de mim por causa do meu cabelo (cortado como de menino na época). E nem por isso nenhum de nós brigou com ninguém. Isso acontecia com todos, todo mundo ria de todo mundo. Não tinha essa coisa de bullying. Acredito que isso exista hoje. Mas na época, a gente era bem educado dentro de casa. Ainda hoje, conheço o gordinho e o magrinho. E os dois são ótimas pessoas, ainda gordinho e magrinho, hehe. Mas, tem suas próprias vidas, trabalham, estudam, enfim, vivem suas vidas.
    Porém hoje, vejo coisas inacreditáveis. Como a menina que se matou porque sofria bullying na escola. Onde estavam os pais desta menina? Nas fotos do face dela, ninguém sabia de quem ela estava sofrendo bullying. Outros diziam que se descobrissem quem era, iriam picar, bater e etc... Estamos vivendo em uma sociedade hipócrita. Se as crianças fossem bem educadas dentro de casa, aposto que as proporções das coisas terríveis que acontecem na rua seriam bem menores.
    Beijos <3

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    1. Disse tudo, Roberta!
      É bem por aí mesmo!
      Adorei tua visita e conhecer seu ponto de vista!
      Beijo

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  2. Nossa que Papo Maravilhosoooooooo....

    Tania, concordo com vc em tudo amiga!!

    Como professora vejo que a educação NÃO mais é feita em casa e sim delegada a escola mesmo!!! E os pais enchem o peito para dizer que a escola é que é responsável por isso... #medo Fico com medo desta geração quando se tornar adulta.

    Beijocas, <3

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    1. Sinistro, né, Math?
      Muitas coisas evoluíram, mas a educação parece que sofreu muito dos essas alterações.
      As pessoas não conhecem seus verdadeiros papéis na família, na sociedade, no mundo! Lamentável!
      Beijo

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  3. Queridíssima!
    Amei!!!
    Engraçado como compartilhamos esses princípios... Engraçado, não! Fomos educadas numa realidade em que as instituições: Família, Escola, Igreja (independente da fé) e Estado funcionavam, nos formavam, nos protegiam.
    Lembro-me quando meu vizinho pegou e rasgou minha bola em plena brincadeira com os amigos do prédio porque estávamos brincando no pátio. Esse gesto me ensinou que as regras foram fitas para serem cumpridas, que devemos cuidar do espaço de todos, que a liberdade tem seus limites e que a democracia não quer dizer faça tudo o que quiser. Sou grata ao meu vizinho e sempre multiplico essa lição. Beijão e parabéns pelo texto! :)

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    1. Lembro desse episódio, amiga!
      Há coisas que, de fato, nos marcam para sempre.
      Ninguém saiu traumatizado, mas usamos as situações pelas quais passamos para construir nosso caráter. Somos frutos das lições que tivemos.
      Que possamos passá-las aos nossos filhos, sobrinhos e quem mais necessitar!
      Amei sua presença por aqui!
      Beijão!

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